Quando eu era criança, não perdia O Mundo de Beakman na TV Cultura. Era barulhento, era estranho e ensinou a uma geração de crianças brasileiras como as coisas realmente funcionam. Um episódio ficou comigo para a vida toda: o do Henry Ford e a linha de montagem. A ideia de que você podia pegar uma tarefa enorme e intimidadora, construir um carro inteiro, e transformá-la numa sequência de passos pequenos e repetíveis que qualquer pessoa conseguia fazer bem. Você não precisava de um gênio capaz de montar um carro sozinho. Precisava de um processo que quebrasse o carro em pedaços.
Décadas depois, é assim que eu ainda penso em entregar software. O instinto da maioria dos times, diante de algo grande, é mapear tudo primeiro. Cada requisito, cada caso de borda, cada endpoint, no papel, antes de uma única linha de código. Parece responsável. Quase nunca é. É assim que os projetos travam.
Quarenta endpoints e uma squad presa na especificação
Um exemplo ao qual sempre volto: uma squad estava atrasada numa integração com cerca de quarenta endpoints. O time estava paralisado, tentando especificar todos os quarenta antes de construir qualquer coisa. A especificação só crescia, o prazo só andava, e nada de fato funcionava.
Então fiz uma pergunta diferente: e se, em vez de mapear todos os quarenta endpoints, a gente fizesse o sistema de ponta a ponta com um só? Um endpoint, mas ligado pelo sistema inteiro, da requisição à resposta, autenticação, tratamento de erro, log, tudo. De repente o time tinha algo real rodando. Dava para validar a abordagem na prática, e não no papel. E, igualmente importante, veio a sensação de completude, a prova de que o caminho funcionava. Depois disso, os endpoints restantes deixaram de ser um muro e viraram uma checklist. Cada um era só mais um trecho de uma estrada que eles já tinham pavimentado.
O mesmo truque, em migrações de CRM
Faço a mesma coisa em migrações de dados. A tentação é sempre mapear cada campo, cada relação, cada exceção antes de mover um único registro. Em vez disso, começo com um exemplo simples e representativo e levo ele até o fim. Esse único registro te ensina o formato real da conexão, as manhas de autenticação, os limites de taxa, os campos que não batem, muito mais rápido do que qualquer documento de mapeamento. E dá ao cliente algo para ver e reagir em dias, não meses. Feedback cedo vence plano perfeito entregue tarde.
Não mudou com a IA. Ficou mais importante.
Vejo gente cometendo o mesmo velho erro com uma ferramenta nova e brilhante: tentar construir uma solução de IA complexa em um único lance heroico. Prompt, agente, ferramentas, avaliação, tudo de uma vez. Como o Matt Pocock já disse, os processos de engenharia de software continuam valendo, mesmo com IA no meio. O modelo muda como você escreve o código. Não revoga a disciplina de entregar uma fatia fina, validar e iterar.
Simplicidade, iteração incremental e validação prática vencem o excesso de planejamento, sempre.
O Ford não deixou o carro mais simples. Ele deixou o processo de construí-lo mais simples, uma estação por vez. É essa a lição inteira, e um programa de ciências infantil me ensinou ela antes de eu escrever a primeira linha de código.
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