Levei um tempo pra entender o óbvio. Aceitar um convite no LinkedIn não diz nada sobre querer comprar. Diz que o meu perfil pareceu profissional o suficiente pra pessoa não achar que eu ia empurrar curso. É só isso que diz.

Então a gente parou de vender no primeiro dia e montou uma cadência no lugar: cinco toques espalhados por 26 dias, cada um fazendo um trabalho diferente. A taxa de resposta saiu de quase nada e foi pros 10%.

Só que o gargalo não estava no texto. Estava em lembrar. Cinco toques por contato, quinze contatos novos por dia, cada toque caindo num dia diferente do calendário: na terceira semana são cento e poucos compromissos espalhados e nenhuma chance de segurar isso na cabeça. E quem perde o terceiro toque jogou fora os dois primeiros, porque é no terceiro ou no quarto contato que a maioria das respostas chega.

O que vem abaixo é como a gente montou isso dentro do Freshsales. Campo por campo, workflow por workflow. Cabe numa tarde, e o mesmo desenho funciona em qualquer CRM que saiba criar tarefa a partir de uma regra.

O que a gente vai montar

O resultado é esse: você abre o Freshsales de manhã e as tarefas do dia estão lá. Cada uma com o link do perfil do LinkedIn no topo e o texto da mensagem na descrição, então nada precisa ser procurado. Você faz o toque, conclui a tarefa, escolhe um resultado. A próxima nasce sozinha, com a data certa.

A cadência é o que está sendo automatizado, então vale olhar pra ela antes de abrir qualquer tela de configuração.

Cinco toques, 26 dias

T0 · Curtir ou comentar um post

Nasce junto com a T1 e vence no dia seguinte. Abrir o perfil, engajar com um post recente, nenhuma mensagem hoje. Comentário vale mais que curtida, desde que carregue alguma coisa.

Vence 1 dia depois do aceite. Se o perfil não tem post, conclua a tarefa assim mesmo.

T1 · A primeira mensagem

Três linhas: agradecer, citar o gatilho, fazer uma pergunta fácil. O texto sai pronto na descrição da tarefa, com o nome e a plataforma já preenchidos.

Vence 3 dias depois do aceite. Sem link, sem anexo, sem pedido de reunião.

T2 · Dar alguma coisa, sem pedir nada

Um link só, alguma coisa que serve de verdade, e a mensagem diz na cara que você não espera resposta. O tema tem que conversar com o gatilho.

Vence 5 dias depois do T1 sair. Nunca pergunte se ela viu a mensagem anterior.

T3 · Um áudio de 40 segundos

Gravado à mão no aplicativo do celular. Cite o gatilho, diga as três coisas que você olharia na operação dela, peça 20 minutos com pauta.

Vence 7 dias depois do T2. Nenhuma automação manda áudio no LinkedIn, essa parte é sua.

T4 · Encerrar com a porta aberta

Você avisa que vai parar de escrever e deixa uma condição concreta pra pessoa voltar. Esse é o toque que mais puxa resposta tardia.

Vence 11 dias depois do T3. Depois dele o contato fica seis meses fora de qualquer lista.

Quem responde em qualquer ponto sai da cadência na hora. Ninguém recebe os cinco toques depois de já ter falado com você.

Clique em um toque. Repare nos vencimentos: eles contam a partir do passo anterior, não do dia zero. Esse detalhe decide como os workflows vão ser montados.

Três regras que o CRM vai ter que segurar

Automação só vale a pena quando protege uma regra que você quebraria numa terça-feira corrida. Aqui são três, e cada uma vira um pedaço de configuração mais pra frente.

Sem gatilho, não manda. Gatilho é um sinal observável de que faz sentido falar com aquela pessoa agora, uma coisa concreta que você viu, com link. "A empresa parece do tamanho certo" não é gatilho. Dez contatos com gatilho valem mais que cem sem, porque o gatilho é o que faz a primeira mensagem parecer escrita pra pessoa. No passo 3 isso vira uma condição do workflow, e aí contato sem gatilho simplesmente nunca começa uma cadência.

Quinze contatos novos por dia, no máximo. Acima disso o LinkedIn começa a limitar convite e, pior, as tarefas acumulam mais rápido do que alguém executa. No passo 2 isso vira o único gesto que a gente deixou manual de propósito.

Quem responde sai da cadência na hora. Ninguém pode receber o toque 3 depois de já ter respondido o toque 2. No passo 5 isso vira um outcome que para a corrente.

Vale listar os gatilhos, porque daqui a pouco eles viram os valores de um dropdown.

Os seis gatilhos
01

Help center público

Procure por empresa.freshdesk.com ou empresa.zendesk.com no Google. O subdomínio entrega a plataforma sem você perguntar nada a ninguém.

02

Vaga aberta

Vaga de analista de suporte citando a ferramenta. Diz a plataforma, o tamanho do time e às vezes a dor inteira.

03

Head de CX novo

Trocou de cargo nos últimos 90 a 180 dias. É a janela em que a pessoa quer mudar alguma coisa e ainda tem verba política pra isso.

04

Post sobre CX

Publicou ou comentou sobre atendimento, IA, automação. Te dá assunto e prova de que o tema já está na cabeça dela.

05

Indicação

Cliente ou parceiro citou o nome. É o mais forte de todos. Use o nome de quem indicou logo na primeira linha.

06

Evento

Participou de webinar, feira ou grupo do setor. Contexto compartilhado que justifica a abordagem.

Seis valores, lista fechada. É o dropdown do passo 1.

Passo 1: os cinco campos

Tudo vai no Contato, nada no Negócio. Não existe negócio ainda, e não vai existir por semanas. Cadência que mora num registro de negócio te obriga a inventar um negócio pra poder mandar uma mensagem, e aí o seu funil enche de ficção.

Nas configurações de administrador, na parte de customização de contatos, crie estes cinco.

Campos customizados no Contato
Plataforma de atendimento Dropdown

Freshdesk · Zendesk · Movidesk · Outra

Texto livre não filtra. Você vai querer uma view que diz plataforma é Zendesk, e um dia vai querer contar quantos são.

Gatilho Dropdown

Os seis da lista acima

O workflow checa esse campo antes de abrir a cadência. Deixou vazio, nada dispara, e é assim que a regra para de depender da sua disciplina.

Etapa da cadência Dropdown

Convite enviado · Aceita · T1 enviado · T2 enviado · T3 enviado · Encerrado · Respondeu

Esse é o motor. Toda a automação escuta mudança nesse campo e em mais nenhum. Mantenha a lista curta e nunca renomeie um valor depois que os workflows apontam pra ele.

Variante T1 Dropdown

Observação · Diagnóstica · Autoridade

Fica vazio até o dia em que o T1 sai. Daqui a três meses é o único jeito de saber qual abordagem é respondida.

Perfil do LinkedIn URL

URL completa, sem encurtar

É o link que a tarefa abre todo santo dia. Use o tipo URL pra ele virar clique em vez de copiar e colar.

Quatro dropdowns e uma URL. Todo o resto que a cadência precisa já existe num contato padrão.

Falta um valor na lista de etapas de propósito: não existe "T0 feito". O T0 nasce junto com o T1 e morre sozinho, sem mexer na etapa. Se mexesse, ele ia precisar de um workflow, e esse workflow ia precisar saber se o T1 já tinha sido criado. Omissão pequena desse tipo é o que deixa uma automação legível seis meses depois.

Passo 2: o único gesto manual

Cadastrar o contato não dispara nada. Você pesquisa a empresa, preenche a plataforma e o gatilho, manda o convite e deixa a etapa em "Convite enviado". O Freshsales ignora tudo isso.

Quando a pessoa aceita, você abre o contato e muda a etapa pra "Aceita". É a única coisa que um humano digita nessa máquina.

Bate uma tentação de disparar tudo na criação do contato e pular esse passo. Não faça. O aceite é o único evento desse processo inteiro que acontece fora do CRM e que integração nenhuma enxerga, e é ele que dá a partida no relógio. Disparando na criação, todos os vencimentos escorregam pelo tanto de dias que a pessoa demorou pra aceitar, o que no LinkedIn vai de quatro minutos a três semanas.

O gesto serve também de controle de volume, e é por isso que a regra dos quinze por dia não precisa de configuração nenhuma. Quinze aceites hoje viram quinze mensagens daqui a três dias. Marque trinta numa segunda-feira empolgada e a quinta vem cobrar.

Passo 3: o workflow que abre a cadência

Na área de automações, crie um workflow por evento no módulo de Contatos. É isso aqui inteiro.

Workflow 1 · Abertura da cadência
Quando

Um contato é atualizado e o campo Etapa da cadência passa a ser Aceita.

Só se
  • Plataforma de atendimento não está vazia
  • Gatilho não está vazio
Então
  • Criar tarefa: T0 · Curtir ou comentar um post, vence em 1 dia, dono: o dono do contato
  • Criar tarefa: T1 · Primeira mensagem, vence em 3 dias, dono: o dono do contato, com o texto da mensagem na descrição
Um gatilho, duas condições, duas ações. Todo outro workflow dessa montagem é uma cópia desse formato.

O bloco de condição é onde a primeira regra deixa de ser promessa. Contato sem gatilho pode ser movido pra "Aceita" o dia inteiro que tarefa nenhuma vai aparecer, e aí a pessoa volta lá e preenche o campo. O CRM diz não sem ninguém precisar dizer.

Duas configurações dentro da ação de criar tarefa merecem mais atenção do que costumam receber.

Dono: o dono do contato, nunca uma pessoa nomeada. Cravou o seu nome ali e no dia em que entrar mais alguém no time, a prospecção dessa pessoa cai na sua lista de tarefas. Tarefa sem dono nenhum é pior: não aparece pra ninguém e fica lá pra sempre.

Vencimento: relativo, contado em dias a partir de agora. Não data fixa. É isso que faz a coisa funcionar tanto pra quem aceitou hoje quanto pra quem vai aceitar em novembro.

E a descrição é onde o texto da mensagem mora, com os campos do contato preenchidos pelo Freshsales. Assim quem executa nunca abre documento, nunca procura template, nunca reescreve de cabeça às 9 da manhã:

Descrição da tarefa T1

Oi {{primeiro nome}}, obrigado por aceitar.

Vi que a central de ajuda da {{empresa}} roda em {{plataforma de atendimento}} e que não tem categoria pra segunda via de boleto. Costuma ser o assunto que mais gera ticket repetido no setor de vocês.

Curiosidade: quem mexe na central hoje, o time de TI ou o próprio atendimento?

O que está entre chaves são placeholders, e a frase do meio é a que você reescreve na mão toda santa vez, porque ela é o gatilho. Template que sai sem ser tocado é a mesma mensagem pra quarenta pessoas, e isso queima o perfil e a marca junto. O template existe pra economizar a saudação, não a observação.

Passo 4: encadear T2, T3 e T4

Mais três workflows, cada um uma cópia exata do formato de cima com duas coisas trocadas: a etapa que ele escuta e o número de dias.

Aqui mora a pegadinha. A cadência é descrita como dia 3, dia 8, dia 15 e dia 26, e esses são dias de calendário contados a partir do aceite. O workflow não sabe o que é dia zero. Ele roda quando uma etapa muda e conta pra frente a partir daquele instante, então o que você digita em cada caixinha de vencimento é o intervalo, não o dia.

O que digitar na caixa de vencimento
Aceita → T0 +1 cai no dia 1
Aceita → T1 +3 cai no dia 3
T1 enviado → T2 +5 cai no dia 8
T2 enviado → T3 +7 cai no dia 15
T3 enviado → T4 +11 cai no dia 26
Digite 5 onde você queria dizer dia 8. Trocar isso é o jeito mais comum de uma cadência dessas sair errada.

Esses dias de chegada só valem se cada tarefa for feita no dia em que venceu. Quem resolve o T1 com dois dias de atraso empurra tudo que vem depois em dois dias, e esse é o comportamento certo: o que importa é o intervalo entre os toques, não o aniversário do aceite. Uma cadência que dispara o T2 com o T1 ainda parado seria pior do que uma que anda um pouco atrasada.

Passo 5: o outcome que empurra a etapa

Até aqui nada liga o fazer o trabalho ao aparecer a próxima tarefa. Essa ligação é o outcome.

Na área de customização das atividades de venda, adicione três resultados ao tipo de tarefa que você está usando: Enviado, Respondeu e Não fazer. Concluir uma tarefa passa a ser escolher um deles, e a escolha decide o que acontece em seguida.

A volta que anda sozinha
01

Você conclui a tarefa

E escolhe um outcome: Enviado, Respondeu ou Não fazer.

02

Um workflow lê o outcome

Enviado empurra a etapa pra frente. Respondeu e Não fazer não empurram nada.

03

A etapa muda

De Aceita pra T1 enviado, por exemplo, no registro do contato.

04

Nasce a próxima tarefa

Porque já tinha um workflow escutando essa etapa nova. E a volta recomeça.

Quatro workflows e um campo. Nada aqui sabe da cadência inteira, e é por isso que ela não trava.

O "Respondeu" é o mais importante, e ele faz o trabalho dele não fazendo nada. A etapa vai pra "Respondeu", workflow nenhum escuta esse valor, e a corrente simplesmente para. Depois vá apagar a tarefa futura que ficou aberta naquele contato, porque a cadência parou mas a tarefa que já tinha sido criada não sabe disso.

Se o seu plano não deixa workflow disparar na conclusão de tarefa, isso continua funcionando com um clique a mais: quem conclui a tarefa também muda o dropdown de etapa no contato na mão. Tudo dali pra frente é idêntico, porque os workflows escutam o campo de etapa de qualquer jeito, não a tarefa. Se você estiver na dúvida, monte assim primeiro. É mais fácil automatizar o clique depois do que depurar duas camadas de uma vez.

Uma coisa que custa mais do que parece: concluir a tarefa é uma mudança de estado, não um visto de "eu vi". Se você abriu, copiou o texto e não enviou, deixe aberta. Uma cadência que acha que mandou uma mensagem que nunca saiu é pior que cadência nenhuma, porque você não acha mais esse contato.

Passo 6: as views que você abre todo dia

Três views salvas transformam tudo isso numa rotina de 30 minutos.

Tarefas de hoje. Filtro: vencimento é hoje, dono sou eu. Ordene por tipo de tarefa pra os T1 virem antes dos T4. Essa é a manhã, 15 minutos.

Ainda sem gatilho. Filtro: etapa é "Convite enviado" e gatilho está vazio. São os contatos que nunca vão começar uma cadência enquanto alguém não fizer a pesquisa. Essa é a tarde, 10 minutos, e é uma lista de tarefas, não um mural da vergonha.

Aceitos hoje. Filtro: etapa é "Aceita" e a etapa mudou hoje. Esse é o fim do dia, 5 minutos, e a única função dela é te mostrar se você passou de quinze.

Passo 7: o que medir

Monte o relatório em cima das quatro coisas que uma pessoa de fato controla: contato com gatilho escrito no CRM, tarefa concluída dentro do prazo, cadência que chegou até o T4 e conversa iniciada. Reunião marcada é consequência dessas quatro e merece outro relatório, um pelo qual ninguém é cobrado toda semana.

O campo Variante T1 se paga aqui também. Daqui a três meses, agrupe as respostas por variante e você descobre se observação responde mais que diagnóstica na sua lista. É o tipo de resposta que só existe porque alguém preencheu um dropdown noventa vezes.

O que quebra depois de montado

Tarefa sem dono. Não aparece pra ninguém. Se você vir uma tarefa numa lista com a coluna de dono vazia, tem workflow com o campo de dono em branco.

Workflow que escuta o campo que ele mesmo muda. O Freshsales se protege dos laços óbvios, mas o estrago de verdade é mais sutil: regra que dispara em "qualquer atualização do contato" e depois atualiza o contato vai rodar em cima da própria edição. Dispare sempre na mudança do campo específico.

Vencimento caindo no sábado. Ninguém vai fazer o T3 no fim de semana, então ele sai na segunda e tudo escorrega. É inofensivo, mas é o motivo pelo qual a cadência leva 30 dias tanto quanto leva 26.

Tarefa órfã depois de uma resposta. A pessoa responde o T1 e você ainda tem o T0 aberto ali. Conclua com "Não fazer" pra lista continuar honesta.

Renomear um valor de dropdown. Troque "Aceita" por "Convite aceito" e todo workflow que apontava pro texto antigo emudece, sem erro, sem aviso. Batize uma vez, mal se for preciso, e não mexa mais.

Antes de ligar pro time

Crie um contato de mentira com o seu próprio nome. Preencha plataforma e gatilho, mova a etapa pra "Aceita" e veja as duas tarefas nascerem com as datas certas. Depois conclua a T1 com "Enviado" e veja a T2 aparecer pra dali a cinco dias. Dez minutos, e economiza a semana em que ninguém entendeu por que nada apareceu.

Aí teste o caso negativo, que importa mais: crie um segundo contato com o campo de gatilho vazio, mova pra "Aceita" e confirme que não acontece absolutamente nada. Se a tarefa aparecer mesmo assim, o seu bloco de condição está errado, e a regra inteira que a automação existia pra proteger não está protegendo coisa nenhuma.

Tudo isso é execução, e execução um CRM bem configurado carrega no colo por você. A parte que não dá pra automatizar é escolher pra quem escrever.

E eu ainda erro isso. Semana passada mandei convite pra um head de CX de uma empresa que eu não tinha checado, imaginando que descobria a plataforma depois. Não descobri. O contato está lá até hoje, parado em "Convite enviado", sem gatilho e sem cadência, esperando eu fazer o trabalho que era pra ter vindo antes.

Se o seu comercial roda no Freshsales e você prefere não montar isso do zero, vem trocar uma ideia com a gente.

Leandro é fundador da Red Lotus Tecnologia, especializada na implementação, suporte e evolução de Freshdesk e Freshsales para times no Brasil.