Aquela mudança foi quando meus pais se separaram e eu fui morar com a minha mãe. Ela é psicóloga, tinha parado a carreira uns anos pra cuidar de mim e do meu irmão, e naqueles anos voltou a trabalhar. Voltou fazendo curso, se atualizando, comprando livro de inteligência emocional. Daí o peso das caixas.
Mas livro já era paisagem lá em casa muito antes disso.
Enciclopédia da Rússia
Meu pai assinava a Folha, e naquela época você juntava os cupons do jornal, ia na banca e trocava por coisa. Numa dessas a gente trocou por uma enciclopédia da Rússia. Não me pergunte por quê. Tinha enciclopédia da Rússia em casa.
Criança dos anos 90, então também tinha o fascículo de dinossauro que você colecionava toda semana e no fim montava um dinossauro de plástico. Culpa do Parque dos Dinossauros. E minha mãe tinha as coleções da Disney, os contos de fadas, aquilo tudo.
Meu pai escreveu um livro, inclusive. Em 83, antes de eu nascer. Ele era da área financeira e o livro era sobre um programa que ele tinha feito, basicamente um Excel rodando em DOS. Anos depois eu tava procurando o nome desse livro no Google e apareceu o currículo de um sujeito na Catho listando, entre as habilidades, conhecimento naquele programa. Da mesma empresa onde eu vim a trabalhar muito tempo depois.
O que está na sua cabeça
Um amigo dos meus pais tinha passado pela Guerra de Angola e contava de uma professora de lá, nos anos 70, que dizia pros alunos que na guerra você pode perder tudo, menos aquilo que está na sua cabeça.
Não sei explicar por que uma frase dessas atravessa quarenta anos e chega em mim de segunda mão, mas atravessou e ficou grudada. Até hoje, quando eu compro um livro, não me passa pela cabeça olhar aquilo como custo.
O livro que se pagou no primeiro dia
Tem o lado prático também.
2004, faculdade. A gente tinha acabado de desbancar o truco: pôquer virou o jogo oficial do intervalo, e várias vezes o jogo oficial durante a aula também. Foi na esteira da ESPN começar a transmitir a World Series of Poker, que mudou o hábito de muita gente ao mesmo tempo. Texas Hold’em, sempre.
Não era jogatina de perder casa. Uma sexta boa rendia uns cinquenta reais, o suficiente pra cerveja e churrasquinho depois.
Um dia a gente tava almoçando no Vila Lobos e eu dei uma passada na Cultura que tinha lá dentro. Achei um livro de Omaha, que é um primo do Hold’em: quatro cartas na mão e o pote dividido entre a maior e a menor mão. Comprei. Setenta e cinco reais. Devorei no fim de semana.
Segunda-feira cheguei com a proposta. Gente, hoje a gente joga Omaha. Expliquei as regras, todo mundo topou, e no primeiro dia eu levantei setenta e cinco reais.
O livro se pagou numa tarde. Nunca mais precisei de argumento pra comprar livro.
Dois, e depois zero vírgula seis
A Poli, ao mesmo tempo, foi a coisa mais difícil pela qual eu já passei. Quem fez sabe do que eu tô falando. Tem uma sensação estranha lá de que quanto mais você estuda, pior você vai.
Resistência dos Materiais foi meu Waterloo. Era a matéria que eu tinha decidido honrar, engenharia de verdade, então estudei horrores. Primeira prova: dois. De dez. Beleza, choque absorvido, bola pra frente. Estudei mais ainda pra segunda e tirei zero vírgula seis.
Com dois e zero vírgula seis não tem conta que feche. Não virou drama, eu não fui acumulando reprovação nas outras matérias de engenharia, mas aquela segunda prova foi um choque de realidade que eu carrego até hoje.
A biblioteca técnica
O respiro veio no quarto ano. A parte pesada e abstrata da engenharia já tinha passado e começaram as matérias navais, que são as aplicadas. Usam tudo aquilo dos fundamentos, mas com um navio na frente. Aí eu enxerguei alguma luz no fim do túnel.
E numa aula de Estruturas Navais o professor falou uma coisa que ficou. Que a gente, como futuros engenheiros desse país, tinha que construir a nossa biblioteca técnica.
Biblioteca técnica. Ele repetiu isso mais de uma vez, e não era conselho de leitura. Era encargo profissional.
Manaus, sem cartão de crédito
Me formei e fui morar no Amazonas. Detalhe: eu ainda não tinha cartão de crédito, e sem cartão não tinha Amazon. Então a minha biblioteca técnica, no começo, foi torrent e PDF.
O PDF mais importante que eu li na vida foi um desses. Excel Power Programming with VBA, do John Walkenbach, uns vinte anos atrás. Foi ali que eu entendi que dava pra transformar o Excel em ferramenta de escrever software, e não em planilha melhorada. Alguns anos depois eu larguei a engenharia naval por causa daquele caminho.
Quando finalmente saiu o cartão e a Amazon passou a entregar em Manaus, aí sim começou a biblioteca de verdade. Sistemas de amarração, estruturas navais, e os livros da faculdade que eu tinha usado emprestado. Comprei Resistência dos Materiais. A mesma matéria do zero vírgula seis, que eu acabei usando bastante em projeto.
E não era só engenharia. Jack Welch, história da Apple, livros de liderança. Esse Barco Também é Seu foi um dos que mais me marcou.
Dois anos depois eu voltei pra São Paulo com três malas. Uma de roupa e duas de livro.
Um livro por segmento
Como eu mudei de carreira várias vezes, aquilo virou método. Cada segmento novo, eu vou atrás do livro daquele segmento antes de tentar parecer inteligente numa reunião.
Seguradora: comprei o Against the Gods, do Peter Bernstein. Recomendo até pra quem não é do ramo. Ele conta a história do risco, como a humanidade foi aprendendo a medir o que não dá pra prever, e como isso virou preço.
Transportadora: fui atrás da história das transportadoras americanas e das origens do setor. Trabalhei numa e li o livro da casa. Tinha o livro da história da Expresso Jundiaí ali também.
E teve a Adobe, que é uma das melhores histórias que eu li. Dois matemáticos que trabalhavam na Xerox, onde qualquer projeto levava cinco, sete anos pra sair do papel. Eles tinham criado o PostScript, que resolvia um dos problemas cabeludos dos anos 80: fazer o computador imprimir o seu arquivo numa impressora qualquer.
E o plano de negócio deles era abrir um quiosque. Uma lojinha onde as pessoas levariam os arquivos e eles imprimiriam. Esse era o plano.
A sorte foi encontrar um sujeito chamado Steve Jobs, que falou que não queria quiosque nenhum, queria licenciar o software pras impressoras da Apple, e botou dois milhões de dólares na mesa. Foi o dinheiro de partida da Adobe. Os dois eram muito bons: construíram todo o sistema de fontes, depois veio o Illustrator, depois compraram o Photoshop.
O efeito colateral disso tudo aparece na frente do cliente. Quando eu sento com uma transportadora, eu já sei mais ou menos como o negócio gira, quais processos existem, onde costuma doer, o que tira o sono da operação quando o processo não conversa com a tecnologia. Isso não me torna especialista no negócio deles. Mas me deixa fazer pergunta melhor e conectar ponto que ficaria solto.
Estudar antes do problema aparecer
Tem gente que estuda quando o problema chega. Eu estudo porque eu gosto, e quase sempre o que eu estudo hoje vai servir daqui a seis meses.
Um dia eu botei na cabeça que queria aprender Linux. Não tinha demanda nenhuma pra isso. Comprei livro, fiz curso, e comprei um servidor da Dell pra botar em casa. Na época eu mal sabia o que era computação em nuvem, então a solução óbvia era comprar um servidor. Ele tá comigo até hoje.
O curso foi com o pessoal da Alura, com o Silveira. Bem extenso, comando por comando, usuário, grupo, permissão, permissão de arquivo, as ferramentas utilitárias. Me deu uma base boa, e eu fiz por vontade, sem nenhum plano por trás.
Seis meses depois eu fui promovido e caí no time de analytics. E de repente eu tava dando SSH em servidor o dia inteiro, rodando processo de Hadoop, Hive, depois Spark. Tudo em cima daquela base que eu tinha construído sem motivo nenhum meio ano antes.
Saber que existe
Tem uma parte disso que eu chamo de indexar. Você lê e nem sempre vai usar aquilo. Mas fica registrado que aquilo existe, e no dia que precisar você sabe onde ir buscar.
O melhor caso disso na minha carreira foi com Zendesk. A gente trabalhava muito com a ferramenta e eu tinha feito o dever de casa: estudar tudo o que ela oferece, ler a documentação inteira, inclusive as partes que não interessavam naquele momento.
Aí chegou um cliente precisando integrar marketplace. Mercado Livre, Magalu, Shopee, aquele conjunto todo. A resposta natural teria sido que não dá pra integrar isso no Zendesk e que cada canal ia continuar por fora.
Só que eu sabia que existia o Channel Integration Framework, que serve exatamente pra trazer canal de fora pra dentro do Zendesk. Eu já era gestor nessa época e não tinha tempo de botar a mão na massa, mas tinha o suficiente pra dar a direção: existe isso, a documentação tá aqui, é assim que funciona, vão.
Aquilo virou produto. Integração de canal, o atendente respondendo ticket de marketplace de dentro do próprio workspace, fazendo as ações por ali, e continua sendo vendido até hoje.
A minha contribuição técnica foi saber que existia. Quem não soubesse teria passado batido e resolvido de um jeito pior. Tem várias empresas que fizeram integração de marketplace de um jeito mais tosco, e a razão é só essa.
O livro que me obrigou a olhar no espelho
Nem toda leitura é confortável.
Uma vez eu li um livro sobre consultoria que tinha uma ideia que me pegou de jeito. Eu tinha acabado de perder um projeto porque o cliente não quis pagar o que eu achava que aquilo valia. E a minha reação, que é a reação de qualquer um, foi achar que o cliente não entendeu o valor.
O livro dizia o contrário. Se o cliente não enxerga o valor, tem alguma coisa no seu processo que não está mostrando esse valor. O problema é seu.
Virou hábito. Toda vez que uma proposta não fecha, a primeira pergunta é o que eu deixei na mesa, e não o que o cliente deixou de entender. Livro de cinquenta, cem reais. Projeto de dezenas, centenas de milhares.
Três livros no ano
A parte que eu mais gosto disso tudo não é a minha estante.
Eu tenho o hábito de dar livro pra quem trabalha comigo. Lê esse, quando terminar eu te dou o próximo. Já fiz isso com vários estagiários.
Teve um que chegou no meio da faculdade, meio sem direção, e eu fui passando o que eu tinha lido. Vai estudar Python, vai aprender a escrever teste em Python. No tempo que ele ficou comigo a gente passou por uns três livros.
Um tempo depois a gente se esbarrou. Já não era mais estagiário, tinha sido efetivado como desenvolvedor no banco onde trabalhava. Me agradeceu pelo empurrão e falou uma coisa que eu não esperava: que era, de longe, quem mais tinha lido na turma da faculdade.
Três livros no ano. Três. E isso já bastava pra ser o que mais lia entre os colegas.
Hoje tem muita autonomia, e não é coincidência. Saber ler te dá a capacidade de aprender aquilo que ninguém te ensinou. É a habilidade de se virar no desconhecido, no desafio que você ainda nem sabe que vai enfrentar.
O dinheiro vem depois
Hoje, quando aparece um desafio novo, minha primeira reação é procurar quem já passou por ele e escreveu a respeito. Chatbot, por exemplo: vamos fazer chatbot, então vamos comprar os livros de chatbot. Sai mais barato aprender com o erro dos outros do que com o seu. O Bismarck já dizia isso.
E quando o assunto é fundamento, a lista é curta e não muda muito. Uncle Bob, o Programador Pragmático, Kent Beck, Martin Fowler, o pessoal que assinou o Manifesto Ágil. São ideias que não estão presas a linguagem nenhuma, e por isso continuam de pé enquanto a stack lá embaixo troca de nome a cada três anos. Já listei nove desses aqui.
Tem uma coisa que eu falo e que soa ingênua: estudar pra ganhar dinheiro nunca funcionou comigo. Eu sempre estudei o que eu gostava, e o dinheiro apareceu depois, quando alguém achou valor naquilo que eu sabia.
Não é conselho financeiro. É só o que aconteceu.